Central de Política Internacional

O entupimento do comércio internacional

Universidade Livre Jacques DeMolay
Escrito por Universidade Livre Jacques DeMolay em 30 de março de 2021
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Na última semana, a atenção mundial, tanto dos analistas econômicos como dos usuários da internet, focou-se na interrupção do tráfego marítimo no Canal do Suez pelo navio Evergiven.
A história já é bem conhecida de todos. Na última terça-feira, o gigantesco navio foi atingido por tempestades de areia da região e encalhou diagonalmente, bloqueando um trecho crítico do canal. O fluxo do Mar Vermelho para o Mar Mediterrâneo foi completamente interrompido, causando prejuízos diários bilionários ao comércio internacional.
O Canal do Suez foi um empreendimento oitocentista responsável por ligar Europa e América à Ásia, cortando o estreito entre Egito e Península do Sinai. O feito seria reproduzido logo após com a construção do Canal do Panamá, que conectou o Oceano Atlântico ao Pacífico por sua vez. A conexão entre os oceanos e mares buscou apequenar as enormes distâncias enfrentadas na Era da Navegação.
Como é bem sabido, em sua origem, a exploração marítima buscou ser uma alternativa de conexão entre os continentes à imemorial Rota da Seda, cujo elo final era monopolizado pelas repúblicas italianas mercantes à época. O resultado, de um lado, foi a descoberta da América e a Circum-navegação. Do outro, foi o périplo africano, levando a um rico comércio marítimo de especiarias com as Índias. Entretanto, tanto o Estreito de Magalhães, a Oeste da Europa, como o Cabo da Boa Esperança representavam e ainda representam desafios à navegação, além de obrigar as naus ao contorno de enormes continentes. A engenharia vitoriana buscou socorrer esse inconveniente com a construção de enormes canais, repletos de comportas, de modo a aproximar ainda mais os continentes. Entretanto, não contava com a evolução de grandeza da construção naval nas últimas décadas.
O bloqueio do Canal do Suez representou um retorno aos tempos anteriores ao século XIX, mostrando como as barreiras da natureza seguem imponentes frente ao engenho humano. Entretanto, a lição primorosa extraída do incidente está na interdependência internacional do mundo globalizado. Desde o Colonialismo, o modo de vida da maior parte do mundo depende dos produtos industrializados advindos dos países desenvolvidas. Entretanto, tanto a matéria prima como, após o processo de transnacionalização, os próprios produtos advém da periferia global. O tráfego do Canal do Suez ilustra bem a divisão internacional do trabalho.
Assim, qualquer nacionalismo não pode ir tão longe a ponto de obstruir os fluxos transacionais, ainda que estes assumam a forma de exploração ao invés de cooperação frequentemente. É evidente, portanto, que o protecionismo dos países centrais é agropecuário, mas jamais industrial. Por exemplo, o mote “America first”, quase um moderno Destino Manifesto, mesmo que assente um ufanismo, não é tão tolo a ponto de propor a fechar as fronteiras para bens, apenas para pessoas. Na história, mesmo os maiores dos impérios jamais excluíram o comércio entre os povos, em um intercâmbio de técnicas e, mormente, recursos naturais. Entretanto, esse comércio sempre foi canalizado para um centro dominante, seja Roma, Madri, Londres ou Nova York.
Com isso, percebe-se que o sistema internacional prescinde da troca entre os povos. Entretanto, atualmente, embora se defenda a livre troca entre as nações, alevanta-se um nacionalismo político. Sabemos bem que o comércio internacional, como mecanismo para a convivialidade entre as nações, não presta em uma disfuncionalidade exploratória. Nesse sentido, o sistema internacional necessita de uma maior paridade comercial e, para tanto, os países centrais têm o dever de colaborar com o desenvolvimento dos periféricos.
O Canal do Suez representa uma importante fonte de divisas para o Egito. Entretanto, a prosperidade atual do país secular não se compara com a imensidão das riquezas que transitam pelo canal. Qualquer hostilidade egípcia, como na interrupção canal durante a Crise de 1956 e a Guerra dos Seis Dias, com efeito, representa um abalo negativo para a troca internacional. Entretanto, a situação atual, com camponeses míseros a ver navios nas margens do canal, é igualmente deplorável. Por isso, o desenvolvimento do mundo depende da construção de um sistema internacional sem barreiras, mas também mais justo.

São Paulo, 29 de Março de 2021

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