Núcleo da Ordem da Cavalaria

Na Senda da Fraternidade

Núcleo da Ordem da Cavalaria
Escrito por Núcleo da Ordem da Cavalaria em 11 de agosto de 2020
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Torii

Existe uma história baseada na cultura japonesa, sobre quando um adulto acompanha uma criança a partir de determinada idade para sua primeira experiência de convívio social autônomo. Tendo discernimento para identificar algumas pequenas responsabilidades da vida, ela está preparada para perceber o ensinamento contido naquelas palavras. Talvez também esteja crescendo, e pesada demais para ser carregada no colo o tempo todo. Se você ouvisse alguém contando, seria mais ou menos assim:

Eu era bem novo. Estava com papai em uma parte desconhecida da cidade, pois geralmente quando ele e a mamãe me carregavam para cima e para baixo, eu estava mais atento nas vitrines e cheiros do que me preocupando com onde deveria pisar ou qual caminho seguir.

De repente, pouco depois de papai me colocar no chão e pegar minha mão para que eu andasse, senti meu braço ser forçado para trás. Papai havia parado de andar e olhava para mim com uma cara séria. Estávamos sob um dos vários Torii que sempre via em todos os cantos da cidade. Sabia do seu significado espiritual, mas nunca era tempo de me importar com essas coisas. Aquilo me incomodou um pouco, queria continuar andando, mas ele gentilmente se agachou e, como se eu fosse um mini adulto, começou a falar:

“Você está vendo este portal? Esta é uma parte muito importante do mundo. A partir do momento que passarmos por ele, você deve se comportar da melhor maneira possível, para que seja respeitado, e exija respeito. Todos que estão aqui são dignos da sua atenção, e você deve sempre ter um ouvido atento. Cuide de si, dos outros, e das coisas ao seu redor. Não seja apressado, e em tudo o que fizer, pense em como os outros se sentirão, e se aquilo trará alguma mudança positiva para a sua vida. Podemos continuar?”

Aquilo era estranho, eu estava confiante nos meus passos, e ao mesmo tempo cuidadoso. Atento, olhava cada pessoa, por onde andava e o que fazia, me preocupando se não estava sendo inconveniente com meus pequenos passos para as pernas compridas do papai. Ele olhava pouco pra baixo, e eu só olhava pra cima, tentando achar aquela mágica que o torii guardava.

Mas não a encontrei…

Depois de quase duas horas naquele mercado, comendo pastel, comprando coisas para a casa e implorando por mais um doce, já estava na hora de ir embora. Papai não parecia apressado, eu tentava imitar seus passos, prontamente parando em um pulo toda vez que ele deixava alguém mais velho ou com alguma dificuldade passar. Não demorou muito para que eu visse o torii novamente, no caminho de volta para aquele mundo não-mágico e estranhamente igual.

Quase saindo, papai me pegou no colo com aqueles braços do tamanho do mundo. Finalmente daria um descanso para as luzes no meu tênis, que piscavam incontrolavelmente de tantos passos apressados. Olhando para cima rapidamente, e com um sorriso no canto da boca, começou a falar…

“Você está vendo este portal? Esta é uma parte muito importante do mundo. A partir do momento que passarmos por ele, você deve se comportar da melhor maneira possível, para que seja respeitado, e exija respeito. Todos que estão aqui são…”


Talvez esta história inventada – mas não menos verdadeira – seja uma ilustração aproximada do que Frank Sherman Land idealizava na Ordem DeMolay e na Cavalaria: o ingresso em um local aparentemente especial, mas que fosse simplesmente uma emulação de uma vida normal, porém virtuosa e dedicada a nobres ideais.

O Torii poderia ser substituído pelas colunas de um Templo Maçônico; o mercado por nossos irmãos, Tios e cerimônias; porém o mundo, e o zelo de cada Escudeiro, DeMolay e Cavaleiro para com ele, permanece o mesmo. Carregar as Sete Virtudes Cardeais para fora do Templo é o objetivo máximo da Ordem, contribuindo pouco a pouco para um mundo mais iluminado.            

Esta bela e delicada relação de cuidado é perceptível em diversos momentos no convívio entre um jovem e um Maçom, carinhosamente chamados de Tio no Brasil, mas que nos Estados Unidos, berço da Ordem DeMolay, chamam-se Dad (Pai, em tradução livre). E foi justamente esse ímpeto paternal que fez de Louis Gordon Lower uma espécie de primeiro filho que Frank Land nunca teve. Como conta o reverendo Herbert Ewing Duncan em seu livro “Hi, Dad!” (p. 28), ao conhecer o jovem Louis e apertar sua mão, Land pensou:

“Se eu tivesse um filho, eu gostaria que ele fosse como esse rapaz.”

Foi este primeiro encontro entre um jovem que havia perdido o pai, com um homem virtuoso que não tinha filhos, que fez com que toda a filosofia da Ordem DeMolay, reforçada e aprofundada na Ordem da Cavalaria, nascesse, advinda de uma relação mútua de respeito e admiração.


Frank Sherman Land depositou todo seu caráter e natureza paterna nos esforços para construir algo sólido e belo. O período pós-Primeira Guerra Mundial se mostrava desafiador, e a Ordem DeMolay surgiu como resposta aos questionamentos de uma juventude que precisava de sentido em meio às dúvidas geradas pelos conflitos da época. Da mesma forma se deu com a Cavalaria, criada após a Segunda Guerra Mundial, quando muitos dos jovens DeMolays agora eram veteranos. Eles perderam amigos e familiares no conflito, conheceram o terror da guerra e precisavam voltar para suas casas e viver vidas “normais”.

Land fez o que qualquer pai faria. Ele não era capaz de tratar o trauma, nem curar os ferimentos que aqueles jovens adultos colecionaram nos campos de batalha, mas não ficou inerte às demandas dos seus Filhos e companheiros. Sabiamente, buscou suscitar a nobreza e honra daqueles que servem a um propósito no qual acreditam.

Convenientemente chamada de “Ordem Sagrada dos Soldados Companheiros de Jacques de Molay”, aqueles garotos que haviam lutado lado a lado poderiam buscar uns nos outros, e dentro da Ordem, o alívio e a redenção que inspiravam os cavaleiros de outrora.

Mesmo não sendo um ritualista virtuoso como Frank Marshall, Frank Land realizou o melhor trabalho que poderia na criação de um novo Ritual que exaltasse todas estas qualidades. Sabendo da necessidade de reflexão e direcionamento vocacional daqueles jovens, criou uma programação onde estes Cavaleiros poderiam se reunir para debater as razões da vida e buscar inspiração para o futuro.

Aquela era uma oportunidade de aprender a servir aos seus companheiros e familiares, e consequentemente ao mundo, como uma brisa leve em um dia quente, ou um copo de água fresca a um mundo sedento. Sem precisar se preocupar com os esportes, eventos e outras questões do Capítulo, havia um novo interesse – relevante e necessário – presente na vida daqueles jovens. Tutorados por Dad Land e outros milhares de Tios, a Ordem DeMolay e a Ordem da Cavalaria atravessaram décadas e fronteiras, desembarcando no Brasil com Tio Alberto Mansur em 1980 e 1993, respectivamente.


Desde então, dezenas de milhares de jovens brasileiros tiveram a oportunidade de compor as fileiras, ocupar cargos de liderança e galgar novos patamares pessoais e morais. Durante toda esta caminhada, são muitos os nomes de Tios que serviram de conselheiros, tutores, amigos e figuras paternas, que muitas vezes faltam dentro dos lares.

Não caberia aqui, porém, identificar nenhum deles nominalmente.

Cada jovem sabe, no âmago do seu ser, quem o inspirou e influenciou a ser uma pessoa melhor. O amor ágape demonstrado por Tios e Irmãos no cuidado com seus companheiros reflete-se na história virtuosa de Capítulos e Priorados, que atravessam décadas mantendo firme o compromisso de lealdade e tolerância aprendidos durante esta jornada.

São muitos os relatos de DeMolays que, com problemas dentro de casa, encontraram conforto e conselho nos Tios, ou que na dificuldade de comunicação, confidenciaram seus segredos, encontrando direcionamento nestes companheiros de causa mais vividos. Quantos tiveram seus primeiros relacionamentos com pessoas ligadas à Ordem e seus membros, e quantos tiveram uma conversa séria com aquele Tio, pai de uma Filha de Jó de quem gostava…            

É bela e evidente esta relação de responsabilidade mútua, e a influência que estas experiências têm na vida de cada jovem. Cada Tio tem um papel fundamental na orientação deles, bem como na continuidade deste trabalho magnífico. As reuniões, deveres, discussões, os problemas e suas soluções, são apenas uma parte de uma formação muito mais preciosa e dinâmica, chamada vida, que se torna muito mais simples quando se tem não apenas um, mas vários homens respeitosos, carinhosos e dedicados a quem chamar de Dad.

Autor Pedro Andruccioli
Priorado Caridade e Humildade 63

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2 Replies to “Na Senda da Fraternidade”

Fernando José Aguiar de Moura

Sou o pai do Pedro! Tenho muito orgulho de ler este belíssimo texto, muito rico em valores que são importantes no decorrer de nossas vidas. Vejo que tem sido muito bom pra o Pedro o convívio com os colegas e tios integrantes do Capítulo DeMolay e Maçonaria, somado à boa formação que ele teve em seu ambiente familiar e estudantil. Parabéns ao Pedro e aos colegas que contribuiram para que fosse criado este excelente texto!

Marlon

Belo texto e referência irmão! Parabéns pela dedicação!